Enquanto o mundo rearma e reorganiza cadeias industriais de defesa, o Brasil tem um ativo raro: uma base industrial que produz blindados, embarcações, aviões de treinamento, radares e sistemas que o mercado internacional compra de verdade. As exportações de produtos de defesa bateram recorde em 2025, com cerca de US$ 3,1 bilhões em autorizações — alta de 114% sobre o ano anterior — Fonte: Ministério da Defesa / reportagens econômicas (2025/2026). A demanda global está aberta. A pergunta é se a indústria nacional vai conseguir atendê-la — ou se vai engasgar, como sempre engasgou, na falta de encomenda doméstica estável.
O problema
A base industrial de defesa vive num ciclo perverso: o Estado brasileiro compra em surtos — encomenda muito em crise internacional, nada na década seguinte — e a fábrica que não tem pedido de dentro não sobrevive só de fora. Sem escala doméstica, o custo unitário sobe; com o custo alto, perde-se exportação e o ciclo recomeça. Somam-se dois gargalos técnicos: a dependência de componentes críticos importados (eletrônica, sensores, materiais especiais — exatamente os pontos onde a cadeia global está mais disputada) e a descontinuidade de pesquisa e desenvolvimento, que em defesa é investimento de década, não de ano fiscal.
Há também o filtro comercial: exportar defesa não é exportar soja — exige crédito à exportação, garantias governamentais, diplomacia de suporte e ajuste a regimes internacionais de controle. Países concorrentes têm o pacote completo; o Brasil oferece o produto e deixa o fabricante se virar com o resto.
A solução
Um programa nacional da Base Industrial de Defesa com três pilares: encomenda plurianual garantida em lei, nacionalização dos componentes críticos e pacote completo de apoio à exportação.
Primeiro, a encomenda estável. Lei que fixa, por dez anos, percentual mínimo do orçamento de defesa para aquisições nacionais — planejado e divulgado com antecedência, para que a indústria invista com previsibilidade. Planejamento plurianual de defesa não é gasto: é o contrato que faz fábrica nascer.
Segundo, os componentes críticos. Mapeamento das dependências externas da cadeia (eletrônica, materiais, propulsão, sensores) e projetos de nacionalização com fundos dedicados e compras públicas âncora — integrado à cadeia de terras raras e eletrônica da pauta de tecnologia.
Terceiro, o pacote exportador. Linha de crédito à exportação de defesa com condições competitivas, garantia soberana nos contratos elegíveis e diplomacia comercial dedicada — o país vendo o produto, o financiamento e o suporte no mesmo pacote. Com critérios de destino transparentes: exportação com responsabilidade, não a qualquer tomador.
Como se mede
- Encomenda doméstica: execução anual do piso de aquisição nacional — cumprida ou não, público.
- Conteúdo crítico: percentual de componentes críticos nacionais nos principais sistemas — sobe ano a ano.
- Exportação: valor autorizado de exportação de defesa — mantido o crescimento a partir dos US$ 3,1 bilhões de 2025.
- Emprego qualificado: postos de engenharia e indústria na base de defesa — o multiplicador que justifica o programa.
Indústria de defesa não é só evitar comprar lá fora: é vender tecnologia, gerar emprego qualificado e garantir que o exército brasileiro nunca dependa de autorização alheia para se equipar.