O Brasil registrou 40.775 mortes violentas intencionais em 2025 — queda de 8,2% e menor número em 13 anos (FBSP, Anuário 2026) — e atingiu, dois anos antes do prazo, a meta nacional de homicídios dolosos de até 16 por 100 mil habitantes (G1, 23/07/2026). É a prova de que meta funciona. Mas é também o momento de não afrouxar: a queda convive com letalidade policial em recorde e feminicídios em crescimento (FBSP, 2026) — e, no entanto, a segurança pública ainda opera sem a coisa mais básica de qualquer organização séria: meta pública por território, com prazo, responsável e painel aberto. Sem meta, não existe plano — existe rotina. Sem painel, não existe cobrança — existe discurso.
O problema
Experiências estaduais mostram que meta funciona: estados que adotaram metas formais de redução de homicídios derrubaram os números em anos consecutivos — SP e Ceará são os casos mais estudados da última década. A diferença entre onde a meta existe e onde não existe é a diferença entre gerência e improviso. Onde há meta, a corporação distribui esforço, mede território, ajusta tática e cobra comando. Onde não há, a estatística é comentada no fim do ano — e a vítima, esquecida em março.
Mas meta mal desenhada também mata: meta imposta sem recurso vira maquiagem estatística (homicídio reclassificado como "morte a esclarecer"), e pressão sem direção vira violência policial. A ideia aqui é meta pública com as salvaguardas que a tornam legítima: indicadores cruzados, transparência total e auditoria independente.
A solução
Cada batalhão, delegacia e comando regional terá meta anual pública de redução de mortes violentas intencionais, com painel nacional aberto ao cidadão, plano territorial por unidade e auditoria independente contra maquiagem estatística.
Primeiro, meta por território, não por estado. A unidade de cobrança é o território onde a violência acontece — bairro e região operacional. Meta anual declinante, assinada pelo comando local, com plano de trabalho publicado.
Segundo, painel público em tempo quase real. Um painel nacional aberto, por município e bairro, com mortes violentas intencionais, mortes por intervenção policial, autuações e esclarecimentos. O cidadão digita o próprio bairro e vê a verdade — inclusive a que incomoda a polícia.
Terceiro, auditoria anti-maquiagem. Amostragem independente de boletins e laudos: toda mudança de classificação de óbito é auditada. Unidade que esconder corpo responde por grave quebra funcional — a meta mede redução de homicídio, não de registro.
Quarto, salvaguarda de legalidade. Redução de mortes violentas caminha junto com monitoramento de mortes por intervenção policial: queda de homicídio com alta de execução é fracasso, não sucesso. A meta é vida — das duas mãos do Estado: a que protege e a que não mata.
A objeção que merece resposta
"Meta de homicídio vira maquiagem estatística." O risco é real — e é o motivo de a ideia virar acompanhada das salvaguardas, não sozinha. Meta imposta sem auditoria produz o pior dos mundos: o homicídio vira "corpo encontrado", a morte vira indeterminada e o número cai no papel enquanto sobe na rua. Por isso o desenho aqui tem três travas que a experiência estadual ensinou: painel aberto, onde qualquer cidadão compara o número oficial com o do próprio bairro; auditoria independente por amostragem de boletins e laudos, com divergência classificada como grave quebra funcional; e o cruzamento obrigatório com fonte fora do controle da corporação — registro civil e cartório —, onde corpo não se esconde. E a métrica acompanha as mortes por intervenção policial na mesma tela: segurança que troca homicídio por execução fracassou. Meta séria não é pressão sem direção — é plano com contabilidade de verdade.
Como se mede
- Mortes violentas intencionais: continuidade da queda a partir dos 40.775 casos de 2025 — a meta nacional foi atingida antes do prazo; o desafio é sustentar e descentralizar a régua.
- Integridade do dado: divergência detectada por auditoria independente — a meta é zero.
- Mortes por intervenção: acompanhada em painel junto com homicídios — segurança com legalidade.
- Esclarecimento: taxa de casos resolvidos — impunidade é convite à próxima vítima.
Meta pública transforma segurança pública em promessa cobrável. A queda de 2025 provou que o número obedece a gestão. Ela continua caindo quando alguém — com nome, cargo e painel aberto — assume o dever de derrubar o número em cada território.