O Brasil importa tranquilamente o que não pode parar de importar: chips, equipamentos de telecom, sistemas industriais e software de missão crítica. Em uma economia estável, dependência é apenas custo. Em uma economia de disputa — onde exportações de tecnologia viram instrumento de coerção, como o mundo viu com as restrições de semicondutores e de equipamentos de telecomunicações dos últimos anos — dependência é vulnerabilidade estratégica. Um país do tamanho do Brasil não pode ter seus setores críticos desligados por decisão alheia.
O problema
A dependência se esconde em camadas. Na camada visível, hardware: o Brasil não produz processadores de ponta, equipamentos de rede de última geração nem boa parte dos componentes de sistemas de defesa — tudo vem de cadeias dominadas por poucos países. Na camada invisível, software e dados: sistemas públicos e privados críticos rodam sobre plataformas estrangeiras, com atualização remota, licença revogável e jurisdição alheia. Na camada humana, talentos: a engenharia nacional existe e é boa — mas emigra ou é absorvida por filiais que exportam trabalho intelectual em vez de produto.
A resposta errada é o fechamento autárquico — o Brasil já tentou reservar mercado e colheu atraso. A resposta certa é cirúrgica: identificar os pontos onde a parada custa soberania (energia, conectividade, semicondutores aplicados, defesa, sistemas públicos) e construir capacidade nacional — ou pluripolar — exatamente ali, com o resto da economia aberto.
A solução
Um programa de independência tecnológica em quatro pontos críticos: energia e eletrônica de potência, conectividade nacional, capacidade de projeto de chips aplicados e soberania de software público.
Primeiro, energia e eletrônica. O Brasil já é potência em energia limpa — a independência seguinte é equipamento: transformadores, inversores, painéis e componentes de rede fabricados aqui, com conteúdo nacional crescente nas compras de infraestrutura pública.
Segundo, conectividade. Fibra até o último município e 5G com fornecedores diversificados: leilões que premiam pluralidade de cadeias de suprimento, não só o menor preço — rede que depende de um único fornecedor estrangeiro é rede refém.
Terceiro, chips aplicados. O Brasil não vai fabricar processador de datacenter amanhã — mas projeto de chips aplicados (agroindústria, energia, defesa, pagamento, onde o país é líder de uso) é alcançável: centros de design com fundos livres, parcerias com fundições internacionais e compra pública como cliente âncora.
Quarto, software público soberano. Sistemas essenciais do Estado migram para pilha aberta, auditável, hospedada em infraestrutura nacional — com metas por prazo e auditoria independente. O dado do cidadão não pode residir em jurisdição alheia por conveniência.
Como se mede
- Conteúdo nacional: participação de fornecedores nacionais nas compras críticas de energia, conectividade e defesa — meta pública por setor.
- Pluralidade: número de cadeias de fornecedores independentes em cada camada crítica — nunca menos de duas.
- Software público: percentual de sistemas essenciais em pilha aberta hospedada no Brasil — meta por prazo.
- Talentos: engenheiros formados e empregados em tecnologia crítica no país — precisa subir.
Independência não é autarquia — é escolher onde o país não aceita ser refém. E comprar lá fora, de igual para igual, tudo o mais.