A porta de entrada do SUS é a atenção básica — e é ela que decide se o sistema funciona ou afunda. Países com atenção primária forte atendem a maior parte dos problemas de saúde perto de casa e mandam ao hospital só o que o hospital resolve. O Brasil construiu nos últimos anos uma das maiores redes de atenção primária do mundo — mas com cobertura e resolutividade desiguais: unidades sem médico, equipes incompletas, agendas que não abrem e pacientes que aprendem a pular a unidade e ir direto à emergência. O hospital de porta aberta para tudo é o sintoma: não é hospital que falta — é porta de entrada que responde.
O problema
O modelo brasileiro de atenção primária é bom no desenho e fraco na execução. A Estratégia Saúde da Família provou valor onde funciona — menor internação evitável, cobertura de doenças crônicas, cuidado contínuo — mas a rede sofre três falhas crônicas. Primeiro, falta de profissionais: unidades com equipes incompletas — sem médico, sem enfermeiro, sem agente em quantidade suficiente — Fonte: dados públicos do Ministério da Saúde sobre cobertura das equipes —
O custo dessa falha é mensurável: internações por condições sensíveis à atenção primária — diabetes descompensado, hipertensão sem controle, infecção que virou sepse — ocupam leitos que deveriam servir a cirurgia e a urgência real. Cada internação evitável é fila que não existia se a unidade de bairro tivesse funcionado.
A solução
Um pacto nacional de resolutividade da atenção básica: equipes completas como requisito de financiamento, pagamento por resultado de saúde (não por registro), saúde digital conectada e agenda que abre para o paciente, não para o sistema.
Primeiro, equipe completa ou financiamento proporcional. Unidade sem médico, enfermeiro ou agente suficiente recebe recursos reduzidos e plano de recomposição com prazo — infraestrutura de saúde sem gente é prédio, não serviço.
Segundo, pagamento por resolutividade. Parte do repasse passa a acompanhar indicadores de resultado: cobertura de hipertensos e diabéticos com controle adequado, vacinação, redução de internações evitáveis do território, taxa de resolução na própria unidade. O que se mede é o que melhora.
Terceiro, saúde digital de verdade. Prontuário que segue o paciente — a unidade vê o que o hospital fez, o hospital vê o que a unidade fez — e telemedicina das unidades para especialistas: o clínico do bairro com dermatologista na tela resolve sem encaminhar.
Quarto, agenda aberta. Horários publicados, agendamento pelo aplicativo e capacidade ociosa divulgada: o paciente precisa conseguir entrar no sistema na semana — não no próximo trimestre.
Como se mede
- Equipes completas: percentual de unidades com equipe mínima completa — meta de 100% em quatro anos.
- Resolutividade: taxa de casos resolvidos na própria unidade — sobe ano a ano, publicada por unidade.
- Internações evitáveis: queda das internações por condições sensíveis à atenção primária — o indicador-mestre.
- Acesso: tempo médio até a primeira consulta na unidade — meta de dias, não de meses.
O hospital caro existe para o que só o hospital faz. Quem resolve na porta de casa deixa o leito para quem precisa — e o dinheiro alcançar o dobro.