O SUS produziu em 2025 o maior volume da história — 14,9 milhões de cirurgias eletivas, com projeção de superar 15 milhões em 2026 — Fonte: Ministério da Saúde (2026) — e ainda assim terminou 2024 com mais de 1,2 milhão de pessoas esperando cirurgia, fila que cresceu 26% naquele ano apesar do recorde de operações — Fonte: Ministério da Saúde (2025). Os mutirões nacionais — como o de dezembro de 2025, com 188 hospitais e mais de 11 mil cirurgias em dois dias — aliviam, mas não resolvem a estrutura. O sistema opera no limite e ainda deixa fila — a pergunta que o paciente faz, porém, não é estatística: é "quanto tempo vou esperar?". E hoje, na maioria dos municípios, ninguém responde com precisão. A fila existe no papel de quem espera — no sistema, é um agregado confuso, atualizado atrasado, invisível para quem paga com a própria dor.
O problema
Fila opaca tem dois efeitos perversos. O primeiro é humano: a pessoa esperando cirurgia de catarata ou de hérnia não sabe se está há três meses ou há três anos na lista, não sabe sua posição, não sabe se a fila anda — e fica à mercê do telefonema de favor ou da mudança de cidade para acelerar o próprio atendimento. O segundo é político: sem fila pública, ninguém pode cobrar gestão nenhuma. Gestor bom e gestor ruim produzem a mesma opacidade — e a fila vira paisagem.
A opacidade também esconde a manipulação. Sem registro auditável, há espaço para fila paralela de amizade, para prioridade por pressão política e para estatística maquiada. Transparência não é apenas direito do paciente: é a condição para auditar a própria gestão da fila.
A solução
Um painel nacional único da fila do SUS: posição individual acessível ao paciente por CPF, tempo de espera médio e máximo por procedimento e por município, atualizado em tempo real, com regras de prioridade públicas e auditáveis.
Primeiro, a posição individual. Todo paciente na fila consulta sua posição — por aplicativo, portal ou posto de saúde —: quantos à frente, tempo estimado pela régua do município, data de entrada. Fila que o paciente enxerga é fila que a gestão precisa mover.
Segundo, o painel público. Tempo de espera médio e máximo por procedimento, por especialidade e por município, publicado mensalmente em comparativo nacional. Cidade com fila de 400 dias para ultrassom não pode mais esconder atrás de estatística estadual.
Terceiro, as regras de prioridade. Critérios clínicos de priorização — gravidade, tempo de espera, risco de agravamento — publicados e aplicados por protocolo auditável. Prioridade clínica tem regra; prioridade de favor tem lugar nenhum no sistema.
Quarto, a regulação ativa. Fila visível permite regulação real: pacientes de um município com espera longa redirecionados para o vizinho com capacidade ociosa, com custeio do transporte pelo Estado — a fila nacional é uma só, e a solução também.
Como se mede
- Transparência: percentual de municípios com fila publicada em tempo real — meta de 100% dos acima de 20 mil habitantes em três anos.
- Espera: tempo médio e máximo de espera por procedimento — cai ano a ano, publicado por município.
- Fila total: número absoluto de pessoas esperando cirurgia — de 1,2 milhão para baixo, sem crescer em ano de recorde.
- Regulação: número de pacientes transferidos entre municípios por regulação de fila — a métrica que prova que o sistema coordena.
Dor tem prazo; fila tem número. O SUS já faz o difícil — operar milhões por ano. O fácil que falta é dizer a verdade sobre a espera.